Por que eu invento de pensar !?

Pensar sempre dói. Pensar sozinho dói ainda mais. Sendo impossível fugir de tal suplício mental, faço este Blog para não remoer solitário. Que seja instrumento para produzir e organizar melhor as idéias. Que motive a dura e, às vezes, solitária rotina de estudo e trabalho, a qual separa nossa utopia da realidade tão desejada. Que sirva para registrar e partilhar um pouco daquilo que eu faço, penso e sinto. Que reflita uma parte daquilo que eu sou e luto cotidianamente para ser.

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sábado, abril 05, 2008

História



A Revolução Industrial

Resumo do capítulo segundo de "A Era das Revoluções"
Eric Hobsbawn
Parte I - O fenômeno e suas causas principais



A Inglaterra, no final do séc. XVIII, foi o cenário de uma grande revolução de caráter econômico, a qual se expandiu no século seguinte, principalmente para os EUA, França, Bélgica, Alemanha e Japão. Num primeiro momento, contudo, o fenômeno ficou restrito ao seu berço; certamente até 1830 e provavelmente até 1840, período no qual as artes e a literatura foram tomadas pela a ascensão da sociedade capitalista. “A Commédie Humaine de Balzac é o mais extraordinário monumento literário dessa ascensão” e a ela podemos acrescentar A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra, obra de Engels.


Diferentemente da revolução de cunho político que ocorreu na França (1789), porém igualmente marcante e tão ou mais relevante para o homem que a invenção da agricultura e da cidade, a chamada Revolução Industrial traduziu-se numa profunda modificação dos processos e relações da produção, capacitando-a a avultar a níveis jamais vistos por qualquer sociedade anterior: a energia física transformou-se em energia mecânica, o trabalho da manufatura passou a ser feito em fábricas.


Aludimos, pois, ao fenômeno que o historiador Eric Hobsbawm descreve como sendo aquele no qual se desencadeou não uma simples expansão baseada numa maneira antiquada de produzir, mas a “criação de um sistema fabril mecanizado que, por sua vez, produz em quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente decrescente a ponto (...) de criar seu próprio mercado.


Enquanto esteve mais ou menos confinado ao território inglês o fenômeno vivenciou uma fase mais concorrencial, destacando-se o uso do ferro e do vapor e preponderando os setores têxtil, siderúrgico e agrícola. Quando da fase de sua difusão, sobreveio um período monopolista com grandes trustes e cartéis, principalmente nos EUA e Alemanha, caracterizado também pelo imperialismo neocolonialista e pela ampliação do uso do aço e da eletricidade.


É tarefa obscura demarcar um exato momento inicial ou mesmo outro de finalização para o evento de origem inglesa. Os estudiosos, quando muito, tentam situar com alguma precisão um ponto-de-virada, ocasião na qual a mentalidade industrial passou à dominância na formatação maciça da estrutura social.


O instante, denominado pelos economistas como “partida para o crescimento auto-sustentável”, é localizado pelos historiadores como ocorrido na década de 1780, quando “todos os índices estatísticos relevantes deram uma guinada repentina, brusca e quase vertical para a partida”.

Decorre, então e a priori, da caracterização desse período específico, o rótulo de revolução como “transformação rápida, fundamental e qualitativa”, que findou por contaminar e consagrar todo o conjunto do fenômeno dada a profundidade e o raio de alcance, no espaço e no tempo, das suas realizações e conseqüências.



Vale indagar, contudo, por que importantes atores do comércio ultramarino como Portugal e Países-Baixos, ou mais ainda a França, mais adiantada nas ciências naturais e sociais, não foram capazes de originar uma revolução desta natureza e envergadura?


O tear hidráulico, a bomba hidráulica, a locomotiva a vapor e, já no séc. XIX, o barco a vapor foram invenções que caracterizaram a Revolução Industrial, principalmente em sua primeira fase. Contudo, a Inglaterra, país comparativamente atrasado no sistema educacional, àquela época também ignorou a superioridade tecnológica e científica de seus contemporâneos e necessitou de “poucos refinamentos intelectuais para fazer a Revolução Industrial”, pois “nem mesmo sua máquina cientificamente mais sofisticada, a máquina a vapor rotativa de James Watt (1784) necessitava de mais conhecimentos de física do que os disponíveis então há um século”.


Para se ter uma exata idéia das circunstâncias “os alemães possuíam instituições de treinamento técnico” e “os franceses produziram inventos mais originais, como o tear de Jacquard (1804), enquanto Adam Smith - o pai do liberalismo, defensor da propriedade privada e autor da seminal obra, A Riqueza das Nações - estava ainda muito longe de superar, em reputação e status, fisiocratas franceses como Quesnay ou Turgot, por exemplo.


De toda sorte, para além das jazidas de carvão que o país possuía, do acúmulo de capitais decorrente da exploração de suas colônias americanas, em grande parte incrementado durante o período de Oliver Cromwell (1649-1653), o que contou de fato foi a existência consolidada, já no período que tratamos, do Estado Liberal Burguês emergido da Revolução Gloriosa (1685-1685), afinal “mais de um século já se passara (...) desde o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supremos objetivos da política governamental”.

A resposta consiste principalmente no fato de que a Inglaterra abandonou a condição agrária feudal mais rapidamente que seus demais concorrentes. Tudo começou, portanto, no campo e as características do campesinato britânico eram distintas da versão russa, alemã ou francesa, por exemplo. Uma grande quantidade de pequenas propriedades rurais era cultivada por arrendatários com mentalidade comercial que assalariavam os camponeses e “as atividades agrícolas já estavam predominantemente dirigidas para o mercado; as manufaturas há muito se tinham disseminado por um interior não feudal”.


O campo já podia sustentar, com sua produção de alimentos, uma população citadina improdutiva do ponto de vista agrícola sem comprometer a geração de “um mecanismo de acúmulo de capital para ser empregado em setores mais modernos da economia”. De outra parte, graças aos Enclosure Acts - os Decretos das Cercas que apartou e destinou à pastagem grandes quantidades de terra – o meio rural já era capaz de liberar grande quantidade de mão-de-obra para a indústria.


Somando tudo a uma política estatal agressiva para obtenção de vantagens comerciais no plano internacional, e à obtenção paulatina do caro equipamento necessário para o crescimento econômico: uma frota mercante, facilidades portuárias, melhoria das estradas e vias navegáveis, foi, portanto, inevitável que “mais cedo ou mais tarde esta expansão tivesse empurrado o país através do portal que separa a economia pré-industrial da industrial”. Todo esse “crescimento econômico surge de um acúmulo de decisões de incontáveis empresários e investidores particulares: os homens de negócio.


terça-feira, março 18, 2008

EDA-REMAR - 20 anos


A proposta de uma saudade


Agora, no último dia 11 de março, fizemos aniversário de 20 anos. Olhando para o passado, a garganta seca. É quando faço minhas, as palavras de um dos personagens de Maria Adelaide Amaral, na mais recente mini-série da Rede Globo, Queridos Amigos: “sinto uma saudade dilacerante do que fomos nós”.

Nós, que ainda podíamos ser conquistados por uma simples árvore desenhada a giz numa lousa da escola, formamos inicialmente uma sociedade de amigos com altíssimas pretensões: “transformar o mundo por dentro”. Éramos muitos, talvez mais de quarenta na primeira reunião. No final não mais que vinte, todavia, se não transformamos o mundo, nem a escola, nem o próprio movimento do qual fazíamos parte, dado que nossas estruturas e lideranças refletiam em demasia os vícios do tempo, começamos uma linda história de amizade e utopia.

O ideal de um audacioso processo de educação que desembocaria na formação de profissionais, homens e mulheres comprometidos com um mundo diferente foi abraçado em diferentes graus por cada pessoa, de acordo com sua história e possibilidades. De todo modo era um caminho sempre indicado pelos tijolos de ouro da amizade, que permitia uma marcha tão permeada de felicidade e prazer que talvez tenham sido estes mesmos os culpados de muito da acomodação da qual fomos, por vezes, acusados.

Com toda dificuldade natural aos processos que visam transformar estruturas, uma história foi sendo construída. Avançamos no campo de valores, idéias, processos, ações e utopias que foram disseminadas em mentes e corações. Líderes sucederam líderes, cada vez mais influenciados pela visão de uma sociedade e Igreja sonhada por um tal Leonardo Boff e por um Concílio chamado Vaticano II. Uma visão – é preciso dizer - já bastante turva, empalidecida pelo momento histórico e por ousar, paradoxalmente, acontecer no seio de uma juventude burguesa, de uma realidade financeiramente abastada. A idéia era construir pontes entre dois mundos.

Mas o fio de ouro da amizade, do prazer em simplesmente estar junto e a alegria de trabalhar ao lado dos companheiros, esta continuava a principal característica dos envolvidos naquela utopia. Não se guarde, por isso, a ilusão da unicidade de idéias e posicionamentos. Eles eram diversos e, por muitas vezes, fortemente divergentes, porém resolvidos num fantástico exercício precoce do jogo político.

A coesão gerada pelo afeto sincero, pela vivência da lealdade, conhecimento mútuo e respeito às diferenças, pela liderança compartilhada e consciência de objetivo, possibilitou ousadas estratégias de ação que se saiam vitoriosas em quase todas as investidas realizadas. Resultados positivos que geravam uma gradação enorme de sentimentos alheios. Estes iam da admiração e incentivo à raiva e inveja, passando pelas indagações estupefatas de como tudo aquilo se processava ou era possível: são apenas jovens!

Jovens que construíram uma micro-realidade dentro da qual se anulava, quase que por completo, o estado de natureza descrito por Hobbes. Mantiveram, por um tempo considerável, até não mais poderem, o seu próprio Leviatã, baseado na cooperação mútua, nas decisões discutidas exaustivamente, na argumentação política, na liderança multipolar e organização circular, no respeito à diversidade, na ação estratégica e, por fim, na amizade e na espiritualidade cristã encarnada na realidade do tempo.

Fora desse Arraial de Canudos, que, é claro, não poderia durar muito, dentro do território que estava, o mundo seguia sua lógica. Por vezes a falta de contato com essa realidade externa fez-nos ingênuos, cegos e vulneráveis aos seus perigos, inclusive no tocante ao nosso maior tesouro: a amizade. Lobos ferozes babavam a espreita, na esperança de destruir o que não lhes era dado participar, compreender e aceitar. Para meu espanto realizaram baixas significativas, mas nem de longe tocaram a essência, o coração.

Hoje, auto-exilado da forma inicial da nossa utopia batalho em campo estrangeiro. É necessário, porém, que eu esteja nesta frente. É a esperança de ampliação do nosso ideal em direção a águas mais profundas no seio da sociedade global que me faz suportar a dor de seguir “abrindo rotas onde não há”. Tal qual o slogan escolhido para os nossos 20 anos.

Enxergo a necessidade de pelo menos duas frentes de batalha para o momento, a re-fundação do nosso espaço-base mais ligado à Igreja, fonte e suporte de toda a captação e processo educativo do nosso movimento e a principal, porém, ao lado dela, pelo menos, a manutenção de uma rede de comunicação e solidariedade entre todos aqueles que estão dispersos pelos mais diversos ambientes sociais e projetos profissionais paralelos se faz necessária, afinal estes são sim a finalidade última do processo formativo do EDA-REMAR. E Isso até que nos seja permitido enxergar uma maneira de integrar mais profundamente os projetos de tais profissionais. Falo da manutenção de laços.

Lanço esta proposta, fundado numa realidade bastante pessoal: ao mesmo tempo em que a utopia do passado toma novas formas e avança rumo ao futuro, “sinto uma saudade dilacerante do que fomos nós”.

Saudade nem tanto do lugar físico, ele precisava ser deixado para trás, a fim de que viesse o chão real do mundo. Saudade nem tanto da velha utopia, aquela, como aliás já estava no script, tomou a forma de um novo projeto que nada mais é que ampliação e aperfeiçoamento do primeiro. Todavia, pergunto a Deus todos os dias, quando e se, poderei, novamente, algum dia possuir junto a mim amigos e companheiros de viagem tão afinados em um mesmo projeto de vida, e dessa vez junto a outras instituições da sociedade. Seria reviver o paraíso. Estudo todos os dias motivado por essa esperança.



quinta-feira, março 06, 2008

Quem me dera escrever um conto machadiano

Porque se repete o vergalho

Outra vez o estalar de açoite. O grupo de senhoras da sociedade carioca mal podia compreender aquela cena que aturdia o ar tranqüilo de seu costumeiro passeio vespertino pelo Campo da Aclamação.

Abrindo decidida um grande leque branco de renda francesa e estampada de tulipas vermelhas, dona Margarita Dorneles escondeu a metade inferior da face alvíssima e adornada pelas bochechas rosadas, inclinou o rosto à direita e para baixo, até alcançar certa proximidade com o ouvido de sua companhia mais próxima. Só então soltou a fala, fazendo-a escorregar lentamente pelo canto direito da boca, sem no entanto negar-se à expressão de espanto:

- Ora, por Deus! Veja-se aquilo acolá, dona Catarina Andrada! Pois se não é o Prudêncio, escravo forro do compadre Cubas, a vergalhar aquele outro preto pequeno, logo ali à frente do Theatro Constitucional.

- Aquele preto franzino, coitado, é o Giró. Prudêncio tomou o negrinho por seu quando não havia passado uma semana do dia que o doutor Cubas o mandou para fora de casa, presenteando-lhe com a carta de alforria e dois contos de réis – respondeu a jovem e bela dona Catarina Andrada, esbugalhando com perplexidade os olhos cor de esmeralda em direção ao Theatro no intento de avaliar a cena.

Dona Francisca Alves vinha uns três passos atrás da conversa, ao lado de dona Mariana Cruz e suas damas de companhia. Não obstante o peso do longo e suntuoso vestido de veludo azul cravejado de pequenos diamantes na curva do decote, com uma das mãos fez levantar-se do chão a barra da saia, de modo que venceu a distância que separava os dois grupos de senhoras com uma pressa interessada e acrescentou:

- Acaso vossas mercês não sabem?! Quem vendeu o pretinho Giró ao Prudêncio foi o coronel Cláudio Manuel Baptista. Disse-me ele, o senhor meu marido, que admoestou o comprador de que o negrinho franzino para nada serviria, tão indolente e raquítico que era. Mesmo assim, o forro com um sorriso estranho nos lábios aceitou pagar um conto e duzentos mil réis por ele.

As três elegantes e desocupadas senhoras da alta sociedade repousaram suas línguas, todavia apenas por uns instantes. Com as frontes enrugadas pela dúvida, elas repetiram várias vezes o mesmo movimento. Num segundo entreolhavam-se, no outro seguinte contemplavam a cena do vergalho que continuava errante pela Rua da Carioca, agora já em frente à Camisaria Progresso.

Enquanto o silêncio e os olhares recíprocos daquelas honradas damas isolava no espaço e no tempo um pequeno pedaço do Campo da Aclamação, principal ponto político e cultural da Capital Federal, um quente fim de tarde avermelhava o céu. Cerradas naquela clausura invisível e momentânea fitavam-se elas como a procurar, cada uma no semblante da outra, a resposta para um importante enigma: o que levaria um escravo recentemente alforriado a despender mais da metade da generosíssima e incomum oferta monetária de seu ex-senhor na compra de um negro sem valia? Seria por Prudêncio ter-se atinado e arrependido da asneira cometida que Giró recebia nas costas e com tanta força o vergalho?

Quem pôs as senhoras outra vez a escutar o arranhado dos bondinhos nos trilhos, o relincho dos cavalos que os puxavam, e todo o burburinho da gente que ia e vinha, foi dona Grinalda Bento Feitosa. A velha sempre mantivera o cuidado na conversa alheia, embora de outra parte tivera até aquele instante guardado certa distância. Arguta que era, esperava o momento oportuno para aproximar-se e revelar com orgulho velado às companheiras de passeio vespertino, as informações preciosas que detinha.

Desperto o interesse pela natureza das conjeturas que ouvira antes daquele silêncio abducente, dona Grinalda com os passos lentos e calculados surpreendeu o conclave. Tinha sempre os olhos fixos no próprio colo macio e protuberante sobre o qual se assentava um magnífico e reluzente colar de pérolas negras. Com uma das mãos passava em revista as contas da valiosa jóia, com a outra, quando em vez, apalpava pela fronte os bandós do cabelo muito liso e negro. Com a boca em direção ao passeio público quase sussurrou, como a revelar algo sem importância:

- Prudêncio quer o escravo franzino apenas e tão somente para aplicar-lhe o mesmo vergalho que um dia recebeu de Cubas, meu primo.

- Mas o doutor Cubas é um abolicionista convicto. Destes que apresenta discurso formado onde quer que se apresente. Como houvera de proceder de tal modo com Prudêncio? Não é verdade! Protestou de imediato dona Francisca Alves.

Dona Margarita arrematou dizendo que caso fosse verdade o que dissera dona Grinalda, faltava ainda a explicação de por que haveria o escravo forro de comportar-se com o franzino ao modo de seu ex-senhor, vítima que fora do mesmo sofrimento.

Àquelas novas perguntas, caro leitor, nenhuma das senhoras presentes à prestimosa reunião vespertina ousou responder com palavras. Apenas sorrisos pequenos de canto de boca revelavam que cada uma em seu coração atribuíra uma razão para aquela cena que continuava do outro lado do Campo da Aclamação a arrancar gargalhadas dos transeuntes:

- Não, perdão, meu senhor, perdão!
- Toma mais perdão, bêbado!

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Debate Histórico

Para além do Paraíso
Uma nova imagem para o Brasil

Para avançarmos, decisivamente, na construção de um país desenvolvido, transformando esta terra em verdadeira pátria, mãe gentil, aquela que faz chegar a todos os seus filhos os largos frutos de seu chão, precisamos abandonar a visão do paraíso tropical, instalada no Brasil a partir do primeiro contato com o branco europeu, propagada desde então pelos primeiros cronistas como Pero Vaz de Caminha e reafirmada até hoje pelas telenovelas e pelo cancioneiro popular.



O desenvolvimento é filho do trabalho constante para a realização de um objetivo. A história está repleta de exemplos, seja de pessoas, seja de nações que superaram circunstâncias extremamente desfavoráveis, traçaram e alcançaram objetivos: o presidente Luís Inácio Lula da Silva, ex-retirante nordestino e ex-metalúrgico, a ministra Marina Silva, ex-empregada doméstica, o Japão, arrasado no pós II guerra, hoje, entre os países mais ricos do mundo, para ficar apenas com exemplos mais conhecidos ou notórios.



Por outro lado, objetivos são traçados - ou não - mediante uma determinada percepção da realidade. O modo como agimos no cotidiano e trabalhamos para atingir nossas metas – a atitude diante da vida – é também de imensurável importância e determinado pela nossa visão: a imagem mental que temos a cerca de algo e sobre tudo, o mapa cerebral que foi desenhado pela nossa educação, cultura, família, experiências e que inevitavelmente condiciona e limita nossos objetivos, atitudes, o nosso trabalho e ação.



Tais princípios podem ser aplicados na meta de desenvolvimento do nosso país, seja no plano individual - por cada cidadão que almeja ascensão social, melhora das condições de vida para si e para sua família - seja para as nossas instituições públicas e privadas. Uma nação é formada por seu povo e suas instituições.



Os avanços têm inegavelmente acontecido, porém, a visão de país partilhada pela maioria dos brasileiros ainda parece condicionada e restrita a certos elementos revelados nos versos da dançante canção popular de Jorge Benjor: “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza/ Em fevereiro tem carnaval, tenho um fusca e um violão, sou Flamengo e tenho uma nêga chamada Tereza.



É a imagem da vida simples, desprovida de luxo e riquezas, mas livre da repressão sexual, alegre, viril e sensual. Porque rico precisa ser apenas o lugar, que “abençoado por Deus”, é repleto de belezas naturais, de terra vasta “em que se plantando tudo dá” , e os frutos da terra se oferecem sem a necessidade de muito esforço.

Para entender as conseqüências dessa visão, é preciso, antes, saber de onde vem essa concepção da nossa terra brasilis?


Quando os primeiros europeus atracaram por estas paragens, motivados pela fome do capitalismo comercial do séc. XVI, que os lançou à procura de ouro, prata, algo de útil para comerciar ou pelo menos na esperança de achar novas rotas comerciais mais lucrativas, seu olhar utilitário não pôde ignorar a existência, bem ali à sua frente, de um mundo novo e completamente diferente de tudo que já se havia visto. Uma realidade exótica e surpreendente, que de tão irredutível aos esquemas tradicionais desorientava-lhe as mentes. Todavia, logo nos primeiros contatos com o povo nativo a esperança de encontrar algo útil para o comércio deu lugar a decepção. Não havia ouro, prata, ninguém havia se deparado com nenhuma nova rota e dali se resgatava apenas “coisinhas de pouco valor”.


É-nos interessante observar que embora a decepção fosse, talvez, o mais forte sentimento entre aqueles que cá se encontravam na condição de enviados da Coroa Portuguesa, este não foi o aspecto mais destacado nas primeiras crônicas referentes ao Brasil. Os primeiros documentos a desenhar-nos uma imagem. Ressaltava-se antes, a descrição de um lugar exuberante, de “águas infindas” e fartura, um verdadeiro paraíso abaixo da linha do equador.


Acontece que os cronistas, jornalistas daquela época e circunstância, estavam – como, aliás, acontece até hoje - atendendo aos interesses da classe dominante. Para esta interessava resolver um problema que começava a se agigantar na Europa do séc. XVI: a cada vez mais volumosa horda de desafortunados e desvalidos dos benefícios e dos lucros do capitalismo comercial europeu, que expulsos do campo e atraídos para as cidades começavam a se configurar numa ameaça para a ordem vigente.



Segundo o professor Raymundo Faoro, os primeiros cronistas, dentre os quais se destacam Pero Vaz de caminha, Pero de Magalhães Gandavo, Pero Lopes de Souza, Colombo e Vespúcio, “insinuaram outro destino para esta terra” e criaram, a partir de suas descrições e crônicas, “uma visão dotada de rumo pensado, fermentada nos problemas de Portugal e da Europa”.



“Longe do caldeirão das cobiças há terras virgens habitadas por bons selvagens, onde a vida se oferece sem suor” e a liberdade é a lei e a autoridade. Homens e mulheres de corpos saudáveis andam nus tomados pela mais pura inocência. Apesar da vida simples, sem luxo, letras, ciência ou arte, não existe repressão sexual, as nativas são bem feitas e redondas. Qualquer um pode possuir terras vastas e escravos, para livre do trabalho sustentar dignamente sua família e possuir a vida aristocrática impossível na Europa.


Atraídos por esta visão vieram os primeiros estrangeiros que amalgamaram nosso povo. Muito dessa concepção de paraíso tropical permanece nas nossas mentes emperrando nossa evolução enquanto país.


Afinal qual é, ainda hoje, nossa relação com o trabalho? Trabalhar parece ser, ainda, para a maioria de nós, um fardo do qual devemos nos livrar logo que possível, transferindo nosso suor para outros, enquanto ostentamos ou fingimos um estilo de vida, ao qual muitas vezes, ainda, não podemos dar manutenção. Por que muitos empresários brasileiros não se lançam ou não se sustentam frente à competição no mercado mundial? Por que nossas instituições públicas estão repletas de pessoas sem competência para estar onde estão ? Muita delas, o máximo que conseguem fazer é desfilar vaidosas e sem elegância pelos corredores com as vestimentas referentes aos respectivos cargos e profissões, numa clara demonstração de ostentação de poder e inversão da importância entre expressão e conteúdo. Por que será que nossa elite iletrada continua a “macaquear” hábitos refinados sem terem com ele uma verdadeira intimidade ou conhecerem-lhe o fundamento, a finalidade?


Por que nosso povo mais simples, em sua maioria, não reconhece e luta de maneira mais organizada pelo o direito de ter acesso a uma vida mais confortável, com maior acessibilidade ao conhecimento, à cultura, à alta tecnologia, ao conforto, possuindo ambições mais altas? Por que temos tanta dificuldade em cumprir leis, chegando ao cúmulo de existirem por aqui aquelas que “pegam” e aquelas que “não pegam”? Por que a bunda da Carla Perez alcançou maior popularidade que a obra de Ariano Suassuna, algo que certamente não aconteceria na Noruega, por exemplo? Por que somos alvo do turismo sexual? Por que? Por que? Porquês...






Se meditarmos profundamente sobre tais questões chegaremos à conclusão que é tempo de elaborarmos uma nova percepção de nós mesmos e de nossa terra, calcada e planejada segundo interesses mais ambiciosos de criação de uma nação desenvolvida. Olhar nossa terra e nossa gente segundo um novo ponto de vista, para além do paraíso, nos fará trabalhar de modo diferente, colocando-nos mais comprometidamente no caminho que levará aos resultados que tanto sonhamos.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Among the past and now

Lost in my Thoughts


No far away I had a long hair.
I had a guitar to play too,
But, I didn’t have patience to learn playing it.
I had a dog.
However, I couldn’t go out for a walk with my pet.
My father gave me a little sister to protect.
Like almost all young boys in 1990.
But I couldn’t offer love and affection to her,
Because I was hidden behind my utopia.
I wrote some bad poetry,
Like this you are reading now.
But, it spoke about a better land.
In fact I planned to change the world
I and any friends which I belived I had, together.
I failed, we failed with our friendship.
I had a drive license before the right time,
When I was only fourteen years old.
However, I didn’t have earlier my own freedom.

So, the time run away from our hands.
And today, I have got a no very fast car.
I have got a basic black mobile phone and a power computer.
I have got somebody to know and love.
To try one more time.
But, there is no friendship here.
There are no dreams in this new century,
I have just discovered five seconds ago.
Working hard,
I only can maybe to change my mind, my actions.
So, today I have got a hard stone instead my flesh heart.
I'm worried! I'm afraid! It's so cold here.
I want strongly to turn into another person.
So I have got a remembrance too.
When I was sixteen and had a long hair…
I had a magic experience,
when He touched my face.
He smiled, show me your love and told any secrets…

Only a matutine prayer

“Quem coloca sua confiança nos homens é um insensato que construiu sua casa sobre a areia”
Adaptation from Angels Lyrics of Robbie Williams


God

I sit and wait
does God contemplate my fate?
and does He know the places where we go when we´re grey and old?
Because I´ve been told that salvation lets their wings unfold
so when I’m lying in my bed
thoughts running through my head
and I feel that love is dead
I’m loving God instead
and through it all He offers me protection
a lot of love and affection
whether I’m right or wrong
and down the waterfall
wherever it may take me
I know that life won’t break me
when I come to call
He won’t forsake me
I’m loving God instead
when I’m feeling weak
and my pain walks down
a one way street
I look above
and I know I’ll always be blessed with love
and as the feeling grows
He breathes flesh to my bones
and when love is dead
I’m loving God instead
"Porque apenas Deus é fiel..."

segunda-feira, setembro 24, 2007

Começando por justificar...

ou

Para entender os fatos

e aliviar a dor

É curioso observar a vida em sua misteriosa e dinâmica sucessão de cenários. Vale o esforço de considerar com atenção essa perspectiva, sempre renovada pelo seu constante crescimento, redesenhada no espaço do tempo pelo acréscimo dos novos acontecimentos.


Nela, o que hoje nos parece sólido pode ir-se desmanchando lentamente no ar. Nosso maior orgulho está sujeito a desaparecer, feito aquela água de mar que se evapora, represada nos tanques das salinas. Substância sagrada que se vai dia após dia, sob a agonia do sol escaldante, deixando para trás um solo triste e lunar, onde a alegria do verde não viceja.


Será que os sonhos, os ideais e o amor morrem por si, depois de passados seus prazos de validade? Ou tornaram-se vítimas deste tempo insano?


Sucumbiram pelo medo? Ou foram eles assassinados por nossa vontade insegura e hesitante?

Veleidade...


Capitularam por causa de ordinárias e recônditas motivações? Ou cederam à nossa face obscura, doente, que ainda nos controla com ferro e fogo, assusta e afugenta?


Neste suposto crime, a culpa foi da imaturidade, comum aos jovens aprendizes?

O delito foi provocado pela simples armadilha da ingenuidade de quem ainda desconhece a si e às esparrelas do mundo?

Permanece, de outro lado, a probabilidade de ter agido sorrateiro o egoísmo consciente. Aquele calculado astutamente para aproveitar-se da fragilidade de quem confia. Sentimento nefasto e capaz de canalizar, sob o manto da desfaçatez espúria, a energia criativa alheia, para colocá-la a serviço de ambições pessoais dissimuladas ou da simples vaidade.


E se tudo foi feito pela mais justificada necessidade, quer na inocência, quer na sagacidade, os fins justificaram os meios? Ou teriam existido saídas mais coerentes para cada “Cheque-mate” colocado?


Eis um longo e intrincado conjunto de possibilidades que não se excluem entre si tão facilmente, da maneira que foi aqui explicitada, mas, de outro modo, podem apresentar-se simultaneamente e em desconhecidas proporções.

Eis uma espiral esdrúxula e sem fim, que girando velozmente, pare novos questionamentos na ordem de mil por segundo, causa tontura, confusão mental e mal-estar, em noites inteiras passadas às claras tentando decifrar "porques".

Muitas perguntas nascendo na cabeça, nenhuma certeza no coração, e um fato doloroso; ao mesmo tempo constatado lá fora e cá dentro, sob a mira de nossos olhos marejados.


Aqueles que se julgaram diferentes, arautos de outro tempo, foram à luta pelo novo usando as velhas armas. Caíram por terra porque ficaram iguais. Nivelação que não ocorreu da noite para o dia, mas lentamente e com uma justificativa racional na ponta da língua para cada deformação do ideal, do mesmo modo como foi tão bem descrito por George Orwell em A Revolução dos Bichos.

Bem a frente de nossas vistas pasmadas pela incredulidade, a amizade que deveria transformar o mundo por dentro foi sendo transmudada em mercadoria barata. Quinquilharia comprada, agora, a dois dinheiros por quem desdenhava, ontem, da abjeta banca de feira que a vendia.


Restou a solidão, o vazio, a decepção paralisante e um espanto de frustração. E junto deles ganhou força todo o séquito impiedoso de emoções primárias e conseqüências funestas que flutuam na órbita de cada um destes sentimentos: o medo, a culpa, a angústia, a ira, a revolta, o sentimento de vingança, o cansaço, a tristeza, o descrédito no belo, nas pessoas, nos valores que um dia foram perseguidos.

Sentimentos suicidas, os quais, hoje, reconhecemos e renunciamos porque, em meio a todos os escombros desta cidade imaginária, subsistiu também, a possibilidade feliz de contar essa história para os filhos órfãos e famintos desta revolução que ficou na promessa.

E a contaremos amparados na esperança revigorada de que ao escutá-la possam produzir, eles mesmos, um novo pão. Um outro alimento, totalmente original, mas transfigurado a partir do trigo vermelho e já podre de seus antepassados. Panacéia capaz de rejuvenecer-nos, desafiar-nos e entusiasmar-nos a todos, mais uma vez, na inescapável tarefa de "fazer acontecer".

segunda-feira, setembro 17, 2007

Do barro que fomos moldados:
o nativo da Terra do Pau-de-Tinta
Da obra de Gilberto Freyre
Resumo do capítulo segundo de Casa-Grande & senzala
Parte I
O ameríndio, encontrado pelos portugueses na “terra do pau-de-tinta ” do séc. XVI, foi elemento étnico que constituiu base para a formação da família brasileira, da economia e sociedade patriarcais que viriam a instalar-se no Brasil.
O colonizador lusitano encontrou nesta parte do continente sul-americano uma população bastante diferente nos hábitos e costumes, além de atrasada na técnica quando comparada àquela com a qual se depararam os espanhóis em sua área de exploração.

De modo geral, os indígenas brasileiros não faziam uso dos metais, eram nômades, coletores, caçadores e pescadores, possuindo agricultura restrita à cultura de alguns víveres como mandioca, cará, milho, jerimum, amendoim e mamão.

A simplicidade da arquitetura de suas habitações coletivas, grandes e quadrangulares, sustentadas por quatro caibros e cobertas de palha, difere em complexidade daquela produzida pelas semicivilizações dos Incas, Astecas e Maias, situadas ao norte da América do Sul e América Central.

Foi com esta população que o invasor, pouco numeroso, teve de contemporizar. No Brasil, o elemento europeu dominou no plano econômico e político, porém dependia do nativo nas esferas social e cultural, graças às condições geográficas e exigências da política colonizadora. Sozinho, aquele “sobejo de gente”, a que fora reduzido o povo lusitano depois da aventura da Índia, jamais obteria êxito na colonização de tão vasto e adverso território.

A miscigenação ocorrida na Península Ibérica com a invasão Árabe iniciada no século VIII (711), o surgimento dos moçárabes, dotou o povo lusitano de uma moral social mais flexível, bastante diferente da ortodoxia puritana dos colonizadores anglo-fônicos, esta que não lhes permitia contato sexual ou social com gente “inferior”.

Ajudados, pois, por esta característica, mas sobretudo, submetidos pela simples falta de alternativa, acuados pela escassez, desde logo, os portugueses trataram de misturar-se, fazendo da mulher nativa uma decisiva matriz multiplicadora de seus braços e pernas. Ao mesmo tempo em que se serviram dos nativos e nativas, também, para as necessidades de trabalho, para as guerras, conquista dos sertões e desbravamento do mato virgem.

Ainda segundo Gilberto Freyre, a sociedade brasileira, híbrida desde o princípio, se constituiu mais harmoniosamente quanto as relações de raça, dentro de um clima de quase reciprocidade, tendo formação diversa daquela observada nas repúblicas brancas ou brancaranas da Região do Prata e do Chile; do grupo de países representados pelo México e Peru; ou ainda, pela tríade do Paraguai, Haiti e República Dominicana, de acordo com a “fourfold division” proposta por Ruediger Bilden para apresentar as quatro diferentes condições de amalgamento de raça e cultura na América Latina.

Duas qualidades de moral sexual depararam-se em território tropical, uma católica, dura e repressora, a outra inocente, mais leve nos impedimentos, com as restrições de intercurso sexual assentadas em outras idéias, polígama, com distinta noção de consangüinidade e incesto.

Nesse encontro o ambiente de liberdade priápica foi de tal intensidade e descontrole que despertou o horror dos primeiros cronistas e padres da Companhia de Jesus. “As mulheres eram as primeiras a se entregaram aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses”. Por outro lado, “a luxúria dos indivíduos, soltos sem família, no meio da indiada nua, vinha a servir a poderosas razões de Estado”.

A tentativa de controlar as heresias descritas pelos padres também tiveram o poder de flexibilizar as leis da “Santa e Madre Igreja” para o impedimento consangüíneo do matrimônio. Os padres procuraram regularizar muito da libertinagem através do casamento cristão: “a estas [sobrinhas] os padres casavam, agora, com seus tios, irmãos das mães, se as partes são contentes”.

A conseqüência dessa amálgama inicial foi “uma sociedade cristã na superestrutura, mas com a mulher indígena recém-batizada por esposa e mãe de família” introduzindo na cultura e vida domésticas muitas das tradições, experiências e utensílios do povo nativo”, tais como: o uso da rede, o conhecimento de sementes e raízes, uma série de alimentos ainda hoje em uso, drogas e remédios caseiros, tradições ligadas ao desenvolvimento da criança, um conjunto de utensílios de cozinha, processos de higiene tropical, entre outros.

Se a mulher índia foi amplificadora da força do branco colonizador, o homem nativo serviu de guia, canoeiro, guerreiro e pescador. Auxiliou o bandeirante mameluco na empresa desbravadora continente a dentro, alargando em sentido ocidental as fronteiras coloniais.

Seu pé nômade é que nunca permitiu às mãos fixarem-se à enxada, mas compensou essa “inutilidade” com esforço contínuo e estável no âmbito militar, fosse na defesa da colônia contra espanhóis e tribos inimigas dos portugueses, fosse na proteção da região açucareira, dos estabelecimentos agrários contra os ataques de piratas estrangeiros.

Somente a partir de meados do século XVI formou-se a primeira geração de mamelucos. Filhos que os pais cristãos pouco se importaram de educar ou criar à moda européia ou à sombra da Igreja. Meninos que cresceram à toa, pelo mato. Alguns tão ruivos e de pele tão clara.

Dessa numerosa progênie mestiça, muitos foram absorvidos pelas populações indígenas, outros se conservaram numa espécie de meio-termo entre a vida selvagem e a dos traficantes e piratas, um pouco sob a influência das naus francesas e das feitorias portuguesas. O fato é que os formados pelos primeiros coitos serviram apenas de calço ou forro para a grande sociedade híbrida e patriarcal que viria a constituir-se.

Intertextualidade pernambucana
De Gilberto a Nóbrega: Chegança
Sou Pataxó, sou Xavante e Cariri,
Ianonami, sou TupiGuarani, sou Carajá.
Sou Pancararu,Carijó, Tupinajé,
Potiguar, sou Caeté,Ful-ni-o, Tupinambá.
Depois que os mares dividiram os continentes quis ver terras diferentes.
Eu pensei: "vou procurar um mundo novo, lá depois do horizonte, levo a rede balançante pra no sol me espreguiçar".
Eu atraquei num porto muito seguro, céu azul, paz e ar puro... botei as pernas pro ar.
Logo sonhei que estava no paraíso, onde nem era preciso dormir para se sonhar. Mas de repente me acordei com a surpresa:uma esquadra portuguesa veio na praia atracar.
De grande-nau, um branco de barba escura, vestindo uma armadurame apontou pra me pegar.
E assustado dei um pulo da rede, pressenti a fome, a sede, eu pensei: "vão me acabar". Me levantei de borduna já na mão. Ai, senti no coração, o Brasil vai começar.
Sou Pataxó, sou Xavante e Cariri,
Ianonami, sou TupiGuarani, sou Carajá.
Sou Pancararu,Carijó, Tupinajé,
Potiguar, sou Caeté,Ful-ni-o, Tupinambá.